quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Strange Gifts



Foi um presente, o colega havia dito. Uma ilustração que um artista conhecido seu fizera, colorida com belas cores e colocada num quadro para ser pendurado numa das paredes.

Pessoas gostam de quadros. A afirmação é justificada com toda a história da humanidade desde o primeiro desenho feito na pedra, e continua sendo verdadeira até hoje.

Pessoas gostam de quadros.

(Ninguém nunca perguntou se os quadros gostam das pessoas).

Ele observou o quadro longamente. Era uma jovem de cabelos dourados tornados verdes na ilusão causada pela água com que a tinta a cobrira. Sua pele também, pálida que era, parecia esverdeada com as escolhas do artista para refletir os estranhos efeitos da luz refletida no lago coberto por flores de lótus. O vestido, incapaz de se decidir entre azul e negro, estava congelado, colado ao corpo onde este se elevava acima da água, ou flutuando numa dança sob ela, como algo etéreo e sem forma.

Os olhos dela estavam fechados.

Ela era linda.

Ele virou-se para o colega, e perguntou: Ela está morta, não está?

O outro sorriu. É de mau gosto, não é? Contou que já teria se livrado da peça muito antes, se não fosse a pena. Meu amigo demorou semanas pra terminar o desenho. O artista não se ofenderia, mas ele não conseguiria simplesmente jogar (ela) fora.

Ele olhou de novo para o quadro. A garota tinha um rosto bonito, apesar da palidez, com um nariz bem desenhado, faces que ainda conservavam a sombra de quando haviam sido coradas e uma boca de lábios delicados. Seu cabelo claro aparentava uma curiosa delicadeza também, e ele poderia até imaginar que, se fosse capaz de tocá-lo, seria macio como seda.

Ele não poderia tocar um desenho.

Eu posso ficar com ele?

O colega havia ficado ligeiramente surpreso, mas apenas por um momento, ele notou, mesmo ao ouvi-lo perguntar se tinha certeza, se não era mesmo nenhum problema, se havia espaço em seu apartamento, e todas as outras perguntas obrigatórias para aquele tipo de situação.

Talvez ele houvesse percebido a beleza silenciosa do retrato, apesar de tudo, e compreendesse. Talvez ele só quisesse mesmo de livrar do quadro. O caso é que, no fim da noite, ele dirigiu para casa com a pintura acomodada no banco do carro, e a pendurou no lugar de uma velha imagem da praia que tinha no escritório.

Parecia perfeito.

Os dias passaram, as noites passaram. Ele chegava de uma reunião e, como sempre, passava horas no cômodo, escrevendo o roteiro ou fazendo pesquisas, tendo apenas o silêncio por companhia. E agora, também, a jovem do quadro. Ocasionalmente, quando a mente caia no branco entre a inspiração e a produção, ele apoiava o queixo numa mão e deixava os olhos passearem pelo lugar enquanto pensava.

Com frequência, eles encontravam o retrato.

(Estou te vendo).

De início, após alguns minutos contemplando a imagem, ele voltava ao trabalho, mas com o tempo foi custando mais. Ele notaria algo de novo, uma curva que o cabelo fazia, uma marca desenhada cuidadosamente no rosto, a corrente do medalhão pendurado em seu pescoço, a forma como o vestido lhe desenhava a curva dos seios, os cílios claros e longos, o traço gracioso dos lábios...

E finalmente chegou ao ponto em que olhar para o retrato significava todo um dia de trabalho perdido.

Era uma distração que ele não poderia se dar ao luxo de ter quando seu trabalho estava num ponto tão crítico, então, com pesar, ele removeu o quadro de sua posição e o pôs no chão junto à estante, voltado para a parede.

Apesar do desconforto, ele trabalhou no roteiro por mais horas do que havia conseguido durante toda a última semana. Era um bom avanço. Talvez ele conseguisse terminar ainda naquela semana, antes do prazo acabar. Talvez. Talvez ele parasse de sentir um par de olhos o observando quando o sono batia.

(Meus olhos estão fechados).

Naquela noite, ele sonhou ao dormir, com água, e flores de lótus, e com um corpo que pesava, desabando cada vez mais fundo e mais longe da luz da superfície.

Muito fundo, ele pensava. Tenho que voltar, tenho que voltar... Mas seu corpo afundava, afundava na escuridão entre as plantas e as criaturas que viviam no fundo do lago, cada vez mais fundo e mais distante do mundo e da luz...

Ele acordou respirando com tanto desespero que, por alguns instantes, se convenceu de que, de fato, quase havia se afogado. Devagar, deixou a cama e o quarto na intenção de ir até a cozinha, beber um copo de água ou uma xícara de chá, mas, no caminho, encontrou a porta do escritório entreaberta.

Seus pés o levaram até o canto da estante quase sem que ele percebesse. Ele se abaixou e apanhou o quadro, e olhou para o retrato.

No escuro, a cor pálida da pele da jovem parecia ainda mais bonita e, olhando para seu rosto, ele teve a impressão de que ela estava adormecida.

Você está tendo algum sonho bom?, ele se ouviu sussurrar, muito baixo, e as palavras pareceram pairar pelo cômodo escuro.

Por um segundo, lhe parece que os olhos da jovem no quadro poderiam se abrir a qualquer momento, agora que ela tinha algo além da parede para ver.

(Não).

Ele pendurou o quadro no lugar de antes, e voltou para a cama.

Quando saiu de uma reunião no horário de almoço do dia seguinte, encontrou o colega que visitara algumas semanas antes, e os dois saíram para comer juntos num restaurante próximo. E inevitavelmente o assunto acabou indo parar no quadro.

Por que seu amigo o pintou?

Era a pergunta que quisera fazer desde o início, ele se deu conta, e o sorriso que surgiu no rosto do colega indicava que ele também percebera. Ele lhe contou então que, pouco antes de começar a trabalhar naquele quadro, o artista passara por uma terrível desilusão amorosa.

Acho que a moça foi bem cruel com ele, falou. Pelo menos o bastante para ele ficar com um ódio terrível dela.

E o quadro foi a vingança?

O outro dera de ombros. Ele estava realmente furioso com ela. Não conseguia deixa-la ir, eu acho. Não até terminar o retrato, e passa-lo para mim. ‘Eu não quero’, lembro que ele falou. ‘Não me serve mais pra nada’.

‘Não me serve mais pra nada’.

Ele chegou em casa tarde naquela noite, e foi logo para o escritório. O prazo havia diminuído ainda mais por decisão dos produtores. Eles queriam a primeira versão do roteiro para o dia seguinte, pois precisavam analisa-la e decidir se iam continuar ou não com o projeto. Ele sabia que precisava apresentar pelo menos um texto completo para ser considerado, então precisava terminar aquilo naquela noite de qualquer jeito. Mas o primeiro passo para dentro da sala o fez congelar.

Ela estava lá, exatamente onde ele a deixara. Bela e morta, congelada nos traços e cores de um artista vingativo.

Muito quieto, ele se dirigiu de novo até parar diante do quadro, olhos observando o rosto. Seria possível que ela estivesse apenas dormindo? Que não estivesse morta, mas que apenas sonhasse, presa entre a moldura, o papel e as tintas?

(Eu me pergunto qual seria a pior opção).

Com mais esforço do que seria considerado saudável, ele se obrigou a dar as costas à pintura e voltar-se para o trabalho. Em pouco tempo, descobriu que era impossível se concentrar – as palavras não se juntavam, as ideias perdiam o rumo, nada fazia sentido e, sutilmente, a ideia de cachos de cabelo úmidos em seus dedos e uma boca pequena e adorável se infiltrava em sua mente.

Havia passado da meia-noite quando ele desistiu, e se levantou.

Devagar e com uma delicadeza cautelosa, ele tirou o quadro da parede e sentou-se no chão, o colocando de pé diante de si. Ela era lindíssima. Por um infinito de segundos, ele apenas a observou em todos os seus detalhes de rosto, corpo, cabelos, cílios, olhos...

(Meus olhos estão fechados).

Sua boca se abriu, e ele sussurrou a pergunta:

Você poderia abrir seus olhos para mim?


E então ele sonhou que afundava no lago entre as flores de lótus, que caia lentamente, cada vez mais longe da luz, até sentir um par de braços esguios e gelados o envolvendo, e um corpo se enroscando no seu na escuridão.

E, por fim, ele também fechou os olhos, e adormeceu.

...

Era para ter sido um texto de Dia das Bruxas. Por conta da minha incrível habilidade de procrastinação, foi empurrado para Dia de Finados, só que depois de passar o dia inteiro entre os dois maiores cemitérios de Maceió apurando informações e entrevistando gente para uma reportagem e ganhando queimaduras de sol de brinde, eu estava sem coragem para terminar. Então ficou para hoje. A ideia partiu dessa imagem que meu querido amigo Bardo fez o favor de me mandar na madrugada do Dia das Bruxas, sem avisar que era um gif. Eu quase tive um ataque cardíaco quando ampliei. Espero que tenham gostado do primeiro texto inédito do Melodia, de qualquer forma :)

6 comentários:

  1. Adorei, como sempre.
    Gostei do sentimento de angústia provocado pelo texto, essencial numa produção desse "tema". Embora tenha sido angústia demais... Ponto pra você. xD

    Awesome Text, Sister. =)

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  2. O crédito da ideia nem é meu, só de começar a ler o conto lembrei logo de O Retrato de Dorian Gray xD Adorei a maneira sutil como você trabalhou o conceito, sem revelar em nenhum momento se há algo de sobrenatural na história, mas sempre deixando algumas pistas pro leitor. É muito bom te ver amadurecendo certos aspectos também, creio que esse é um dos textos mais maduros que já li de você. Relendo o texto, achei um estilo bem parecido com o Neil Gaiman, até pelo título, mas começo a notar características bem próprias de seu próprio estilo, que não sie definir bem ainda, mas posos dizer que é bem sentimental e forte.

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  3. Minha nossa! eunão deveria ter lido, pelo menos não hoje... fiquei meio triste... estou no meu quarto escuro também tentando trabalhar, mas em meu torno so tem bagunça >.> (culpa minha claro!)

    mas de fato, texto maravilhoso, melhor, muito mais que texto, sensações que podem ser passadas atravez de palavras tão intensamente, não podem ser chamadas de mero "texto" :3

    parabéns! :3

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  4. Eu, sinceramente achei o texto revigorante e cativante.

    Estou num momento isolado sem vontade de fazer nada e graças a um suco de maracujá + cochilo de tarde, não estou com sono.

    Conforme fui lendo cada parágrafo, fiquei com + vontade de ler os próximos, porém, acho que ele ficaria um tanto fraquinho para um texto de Halloween se a intenção era meter medo.

    Mas repito: gostei do texto.
    Fiquei com vontade de ler os outros, porém, fica pruma próxima... vou obrigar me a dormir agora. xD

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  5. Eu gostei muito. Tento me colocar no lugar do protagonista, e isso me faz sentir um glimpse doq ele sentiu. Também imaginei tudo como uma animação cujos quadros foram pintados a óleo (sabe aqueles que mesmo quando a cena está parada, eh como se o cenário todo se mexesse por causa das pinceladas? é, foi assim que imaginei).
    =D muito bom imouto-chan

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  6. poxa... muito bom! desde o lance do título (achei genial!) até o final surpreendente.

    no começo parece distante de algo sobrenatural. parece apenas uma atração que vai ficando cada vez menos saudável até chegar ao primeiro sonho. gostei muito!

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