quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Retrato do artista que morre jovem



Do começo: “Eu poderia dizer que a gente começou do mesmo jeito que todos os outros, mas aí me pergunto: foi mesmo? Porque nós não acabamos como mais uma banda fogo-de-palha, nós fomos além, mas me fica a dúvida... por acaso a gente começou como as bandas de verdade também? Meus heróis morreram mesmo de overdose? Minha música atravessou o mundo como palavra semi-divina? Meu amor virou bandeira de paz, enfrentou a guerra? Talvez a gente tenha começado com a dúvida ou talvez exista uma loteria, um bilhete premiado de esses daqui vão fazer sucesso e a gente ganhou sem nem mesmo saber...”

Da música: “Às vezes eu me pergunto se precisava ter sido a música. Uma letra de música não é tão distante de uma poesia ou mesmo um conto ou um romance, é? E palavras não são o único jeito de, sei lá. Expressar sentimento. Contar história. Eu poderia ter escrito, pintado, esculpido... feito história em quadrinho! Eu poderia ter feito muita coisa, mas me ocorreu de fazer música e aprender a fazer bem... eu podia ter escolhido fazer cinema bem, e talvez tivesse dado certo. Ou talvez eu acabasse debaixo da ponte, vai saber!”

Da família: “Minha mãe que dizia esse negócio de quer ser músico? Vai acabar debaixo da ponte! Brincando, claro.”

Da banda: “Às vezes você tem que estar com um grupo de pessoas pr’as coisas darem certo, sabe? Naquele momento, quando você sabe que está tudo no lugar certo... e aí eles tão lá. Até que você não esteja mais. Porque, se você vai embora, pra conseguir mais ou pra perder tudo que ganhou, eles não têm que te acompanhar, sabe? Só tem que estar lá no momento exato.”

Da banda, novamente: “Não, não temos muito desentendimento... a gente é uma máquina quando quer. Não quer dizer que a gente sempre quer, né?”

Do futuro: “Eu quero mais. A gente sempre quer mais, né verdade?”

Da morte: “Acho que todo artista sempre morre jovem demais. É, é bem assim, I hope I die before I get old, mesmo. Mas é verdade. Todo artista morre jovem, morre cedo. Todo mundo vai embora, seja por causa... das drogas, da bebida, do estresse, da doença ou da vida mesmo... e só o que fica é aquela herança inacabada, aquela obra sem fim, sem conclusão. E aí vem outro jovem e pega de onde ele parou, e vai na direção oposta. E morre jovem, também.”

Do futuro, novamente: “Não, não penso em parar, não.”


- fim da entrevista.


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It's alive! Post scriptums (isso tá escrito certo?) rápidos: texto escrito numa madrugada enquanto passava na televisão um especial sobre Cazuza (o que não quer dizer que seja necessariamente sobre Cazuza). Foto tirada com celular no esquema de ficar na frente da tv (no escuro) vendo um canal de música até aparecer alguém tocando guitarra. Foram necessárias umas dez tentativas. A foto também foi tirada com celular por motivo de preguiça (de carregar a bateria da câmera).

É, eu sei, meu processo criativo me surpreende as vezes...

4 comentários:

  1. Me identifiquei com o texto, mesmo sem a parte da morte em si... quando acaba um projeto que você empregou muito esforço, é isso que vem na cabeça. Especialmente a parte do começo "será que X ou Y que é muito foda começou desse jeito também? o que eles tem que eu não tenho?"

    Muito bom

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  2. eu curti mt mas, honestamente, nunca li tão rápido, esse txt deve estar passado ky, desenvolva mais nesta área sua imaginação é mt boa

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  3. é legal saber que quem fez sucesso, começou do zero. eu axo q todo mundo que teve sucesso começou do zero, nao acredito em dons, aqueles que vêm da genética. pra mim um dom é gostar mais de fazer uma coisa do que os outros normalmente gostam.

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