domingo, 6 de abril de 2014

Por este momento



Fim de noite e o restaurante estava fechando. As cadeiras e mesas foram empilhadas num canto, o balcão era limpo por um funcionário que hora ou outra bocejava. Num canto, porém, o pianista da noite e o dono discutiam acalorados sobre o pagamento do couvert. Não era uma discussão nova para nenhum dos lados.

- Eu vou parar de tocar aqui, juro que paro... Onde já se viu, quatro horas de trabalho e você me vem com um negócio desses?

- Esse é o acordo, o couvert depende da casa encher ou não, eu já te disse milhares de vezes...

- Eu toco aqui quase toda noite! Toda semana, e você me vem com essa... Por que não acertar um valor fixo de uma vez?

- Mas o couvert acaba rendendo muito mais que o fixo! Quando tem casa cheia...

- Quando! Quando tem casa cheia! Por que não acertamos um fixo e a casa fica com o couvert?

- E isso lá compensa pra mim? E se a casa não enche?

O pianista jogou os braços para o alto em frustração e olhou feio para o dono enquanto ele se virava para dar atenção a um funcionário. Nesse momento, uma mão hesitante tocou seu ombro. Ele virou-se ainda aborrecido para a moça de olhos grandes, recém-contratada, e suspirou pesadamente diante da insegurança.

- Diga, menina.

- Desculpe, senhor, eu me esqueci de entregar antes... – a novata sussurrou nervosamente, lhe estendendo um papel. – Foi uma cliente que pediu pra entregar ao senhor mais cedo, mas tinha tanto que fazer...

O pianista fez um gesto para que ela sossegasse.

- Não se preocupe, agora já foi, eu não aceito pedidos mesmo...

- Ah... Não é um pedido não, senhor, é um cartão... A cliente me disse que não tinha pressa, que entregasse quando desse, aqui...

O pianista franziu a testa e aceitou o cartão que cabia em sua palma, com apenas a imagem de uma tartaruga em verde e dourado na frente. Ele o abriu para ler a mensagem escrita em caneta preta e suas sobrancelhas se ergueram.

- Foi uma cliente que mandou, você disse? – perguntou a menina que já se afastava.

- Ah...! Sim... – confirmou a novata, virando-se para acenar com a cabeça. – Foi uma moça que estava sentada lá atrás. Tinha o cabelo pintado de azul bem escuro...

O pianista fez um murmúrio de compreensão, voltando a ler o cartão. Um sorriso devagar surgiu em seu rosto e se tornou uma risada. Ele apanhou suas coisas e caminhou para a porta, mal se virando quando o dono chamou:

- Ei! E o pagamento?

O pianista ergueu a mão que segurava o cartão e respondeu em tom jovial:
- Já recebi em dobro, colega!

A última vez em que sorri ao ouvir
Por Una Cabeza no piano foi alguns anos atrás
quando meu pai ainda estava vivo.
Obrigada por este momento.

As senhoras, ao passar pela rua, olhavam para a jovem de pé ao lado da mochila cheia de latas de tinta spray e cochichavam umas com as outras. A garota as ignorava em favor de se concentrar em terminar a imagem na qual já estava trabalhando há dias – um rosto moreno andrógino que dormia serenamente enquanto palavras e criaturas fantásticas escapavam de seu cabelo trançado – mas era cada vez mais difícil se convencer da própria surdez.

- ... coisa horrível, uma moça tão nova fazendo esses vandalismos... – um dos sussurros carregados a seus ouvidos finalmente a fez perder a paciência.

- Minha senhora, - ela chamou, virando-se e fazendo boa parte da rua olhar em sua direção. – eu tenho permissão pra fazer isso aqui, ok? Isso é um trabalho remunerado, não tem nada de ilegal acontecendo.

A mulher lhe deu um olhar de desprezo.

- Trabalho remunerado? Eu chamo de perda de tempo! – retrucou sua voz afiada e alta o suficiente para qualquer um escutar. – Você devia tomar jeito e arrumar um emprego de verdade, minha filha.

A jovem fez um som de impaciência e jogou sua lata de spray no chão.

- Primeiro... eu não sou filha da senhora e não pedi a sua opinião. – avisou com as mãos se fechando em punhos. – Segundo, esse é o meu trabalho, e se a senhora não pode respeitar, pelo menos faça-me o favor de não me atrapalhar quando estou trabalhando.

Algumas pessoas riram e seguiram em frente. A mulher lançou um olhar venenoso para a jovem e se afastou, murmurando:

- Falta de respeito... Nunca vi uma coisa dessas, garota perdida...

Fumegando de raiva, a moça virou-se de volta para a arte inacabada, tentando se concentrar novamente no detalhe que estava fazendo antes da interrupção. Não era a primeira vez que alguém desmerecia seu trabalho e nem seria a última, ela não podia deixar cada comentário atrasá-la daquele jeito, mas...

Será que o mundo não podia dar um tempo de vez em quando?

- Aqui. – uma voz chamou e a jovem grafiteira quase pulou de susto ao sentir uma mão tomando a sua. – Você deixou cair.

Uma jovem de cabelos tingidos sorriu, colocando a lata de tinta caída em sua mão.

- Ah... Obrigada. – gaguejou a artista, e a estranha acenou e seguiu seu caminho.

A grafiteira suspirou e voltou a olhar para o trabalho interrompido. Um segundo depois, notou que havia um papel entre seus dedos e a lata. Era um cartão com a imagem de uma coruja colorida com flores no lugar dos olhos na frente. Olhando em volta, ela não viu nem sinal da moça de cabelo azul-escuro, então abriu o cartão para ler a mensagem.

Sentindo os lábios se repuxarem num sorriso, a jovem encarou o trabalho que a aguardava e balançou a lata de tinta para voltar a pintar.

Espero ansiosa pela finalização da obra
para que sua arte passe a colorir meus dias.
Obrigada por estes momentos.

A garota de cabelo trançado passou mais uma página de seu encadernado e inspirou um fôlego cheio de fascínio com a história fantástica da graphic novel. Segurando o livro com uma mão, ela estendeu outra para a xícara de chá, que levou aos lábios para um gole antes de se ajustar em sua cadeira com a satisfação sonolenta de alguém que encontra tempo para si mesma no meio do dia.

- Senhora? Me desculpe interromper, me pediram para lhe entregar isso.

A jovem de trança abaixou o encadernado e piscou algumas vezes, retornando ao presente. Um funcionário do café lhe estendia um papel com um sorriso sem jeito e ela precisou de mais um segundo para murmurar:

- Ah. – e estender uma mão para apanhar o cartão. – Desculpe, isso é...?

- A moça que estava sentada ali me pediu que te entregasse. – explicou o rapaz, apontando uma mesa próxima. – Ela já foi, era a moça de cabelo tingido.

- Oh... – a moça de trança piscou mais algumas vezes, olhando da mesa vazia para o cartão com o desenho de uma máquina fotográfica na frente. – Er, obrigada.

O funcionário anuiu, ainda sorrindo com simpatia antes de deixa-la. A jovem abriu o cartão para ler a mensagem escrita à caneta.

V de Vingança é uma das minhas histórias favoritas.
Hoje é um dia ruim, mas te ver lendo me fez sorrir.
Obrigada por este momento.

A estação de metrô estava lotada. A moça de cabelo azul-escuro suspirou e passou uma música do aparelho de mp3, olhos procurando por sinal do trem. Trocando o peso dos pés a fechando o casaco, ela se perguntou com frustração quando o frio do último mês daria uma folga.

Alguém parou ao seu lado e uma mão colocou algo no bolso de seu casaco, fazendo a jovem de cabelos tingidos olhar com surpresa para a esquerda.

A moça de trança lhe deu um sorriso tímido e ergueu os olhos para conferir o painel dos trens que ainda iam chegar. Devagar, a outra puxou um cartão do bolso. Na frente havia a silhueta azul de um pássaro.

Um sorriso formou-se em seu rosto. Duas mãos se encontraram.

Estou com alguns momentos sobrando.

Vamos dividir?

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Há muito, muito tempo atrás, uma escritora talentosa (Rhuana Caldas) desafiou certa escritora preguiçosa (essa que vos fala) a escrever uma história de romance entre duas mulheres. Como nunca escrevi nada do tipo antes: Rhu, é com você, vale ou não?

Quem puder, confira esta versão de
Por Una Cabeza. É uma das coisas mais lindas que eu já ouvi.

2 comentários:

  1. gostei de como os bilhetes fecham as cenas. é a gente saber o que acontece enquanto o porquê das coisas chega só de testemunha.



    (eu tinha que falar em algum momento que azul é a cor mais quente. desculpa :x)

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  2. faz pensar sobre as multiplas percepções que os outros têm sobre o que fazemos, e lembrar que só vale a pena se importar com as que são boas. ^^

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