segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Teorias sob chuva e sol


para Bibiana Onuki


Ayane sentou-se num dos degraus da escadaria que conduzia a uma passarela – a expressão em seu rosto sinalizava para quem quisesse ver o instante em que sua paciência se esgotou.

- Ok. – ela declarou enquanto puxava os waribashi para soltar a tampa de alumínio do macarrão instantâneo, até então presa pelos palitos de madeira contra o copo. – Já basta de caminhar.

- Uhm... – Solo, de pé em um degrau abaixo dela, apoiou as costas contra o corrimão e olhou ao redor. – Não tem problema a gente comer aqui? É passagem...

Ayane levou uma porção de macarrão à boca e gesticulou com os talheres de madeira na direção oposta enquanto engolia.

- Tem espaço o bastante pra duas pessoas passarem aqui, Sol. – ela estreitou os olhos para a rua iluminada pelo sol forte. – E, com alguma sorte, ninguém vai passar e a gente consegue fazer uma refeição em paz pra variar...

Solo fez uma ligeira careta ao se lembrar de como algumas pessoas os haviam seguido com olhos curiosos no dia anterior enquanto os dois se aventuravam pela cidade, conversando, como era usual sempre que se encontravam pessoalmente, em vozes altas e em português.

Ayane, muito parecida com a mãe no cabelo escuro e liso e olhos puxados, provavelmente não havia se destacado tanto nos meses que já passara morando na cidade. Solo, por outro lado, nunca se sentira tão consciente de seus cabelos cacheados antes.

Era uma experiência e tanto, ser um estranho entre pessoas tão parecidas umas com as outras. Meneando a cabeça, ele optou por não se demorar no assunto e abriu o próprio copo de macarrão enquanto apontava:

- Se sua mãe te ouvisse chamando macarrão instantâneo de refeição, você tava tão ferrada...

Ayane fez um grunhido de frustração após engolir mais uma porção.

- Nem me fale, toda vez que eu falo com ela, é pra ouvir um você tá comendo direito? Não vai se encher de porcaria, menina... – ela balançou a cabeça enquanto ajustava os óculos no rosto e partia o ovo cozido em seu macarrão ao meio. – Eu me pergunto se ela tem noção de quão cara comida é aqui...

Solo abafou uma risada e continuou a lutar com seus waribashi por uma porção de macarrão enquanto ela falava. Não importava quanto tempo passasse, o relacionamento de Ayane com a mãe permanecia o mesmo – cheio de discussões e vozes alteradas num momento, para se tornar risos e demonstrações de afeto em outro.

De fato, se for ser sincero consigo mesmo, a mulher que ele crescera chamando de ‘tia’ provavelmente havia sido uma das razões para ele passar tanto tempo na casa da amiga durante a adolescência.

Aqueles dias pareciam extremamente distantes quando ele olhava para Ayane agora. Na superfície, ela continuava sendo a gamer viciada escondida por trás de um par de óculos com quem ele crescera, mas bastava uma conversa para sentir os anos que haviam passado.

Era uma sensação... Diferente.

- Que foi? – Ayane perguntou, e Solo se deu conta de que havia parado de comer para observá-la. – Me diga que não tem molho na minha cara.

O rapaz riu pelo nariz e negou com a cabeça.

- Nada... Gostei do seu cabelo assim.

Ayane abriu um sorriso com o elogio ao corte que ele sabia ser o mais curto que ela já usara em anos e começou a compartilhar seus planos para pintar os fios de uma cor a decidir. Solo concordou e ofereceu suas próprias opiniões sobre o plano, mas não pôde evitar ouvir a voz que sussurrava constantemente uma pergunta no fundo de sua mente.

O que eu ‘tô fazendo aqui?

O sentimento de quem olha ao redor e percebe que está ficando para trás é difícil de se colocar em palavras e por isso Solo nunca tentava. Não foi diferente dessa vez. Ele terminou de comer o macarrão e conversou com Ayane, ouvindo, opinando e sentindo enquanto ignorava a pergunta novamente. Eles estavam ali para se divertir e distrair, afinal.

Não houve uma primeira gota de chuva – o banho os pegou de surpresa e de uma única vez. Solo ouviu Ayane praguejar e pular do degrau em que se sentara para correr escada abaixo com o rapaz em seus calcanhares. As lembranças de todas as vezes em que os dois haviam corrido daquele jeito debaixo de sol ou chuva atingiu Solo em cheio enquanto eles disparavam para baixo da passarela e logo os dois estavam sem fôlego de tanto rir sob a proteção da própria escadaria sobre a qual descansavam momentos antes.

- Deus...! – ofegou Ayane, olhando para a chuva súbita e as calçadas ainda iluminadas ao redor. – Sol e chuva...

- Casamento de viúva. – completou Solo e os dois gargalharam de novo sem razão. – Como a gente sai daqui? – ele perguntou quando conseguiu respirar.

- Não faço ideia! – exclamou a garota, ainda abafando risadas. – Talvez a gente tenha que esperar passar...

Solo balançou a cabeça para afastar os cachos molhados dos olhos e suspirou antes de virar o copo para beber o que restava do caldo de seu macarrão. Seus olhos automaticamente procuraram por uma lixeira próxima, mas ao encontrar uma no início de um beco, se distraíram ao enxergar alguma coisa na saída do mesmo.

- Que é aquilo, Ane? – sua voz perguntou, mas os olhos permaneceram nas silhuetas distantes.

A garota seguiu seu olhar e estreitou ligeiramente os olhos por trás das lentes dos óculos.

- Parece um desfile... Mas nessa chuva? – os olhares dos dois se encontraram. – Quer investigar?

Solo riu outra vez, ainda distraído pela sensação de nostalgia.

- Pensei que você nunca fosse perguntar...

Novamente, eles correram debaixo da chuva se dividindo entre pragas contra o temporal e risadas sem fôlego até alcançar o beco. Solo diminuiu o passo para jogar o copo de macarrão vazio no lixo e quando virou-se novamente para a outra entrada do beco, se deparou com uma cena saída de um sonho.

Dezenas de pessoas caminhavam em duas filas pela ruazinha em que o beco desembocava, todas vestindo quimonos e chapéus e xales que lhe cobriam as cabeças. Seus rostos eram escondidos por máscaras com algo de animalesco no desenho e seus passos seguiam o ritmo da música tocada por alguns membros do desfile – uma combinação de instrumentos de corda, flautas e percussão que soava estranha aos ouvidos de Solo.

Devagar, ele caminhou até parar ao lado de Ayane, que estava de pé a apenas alguns passos do final da sombra do beco, assistindo com a mesma fascinação que eles. Aparentemente, os dois não haviam sido notados ainda.

- Olha. – Solo a ouviu sussurrar e sentiu sua mão segurar-lhe o braço. – É um casamento.

Ele olhou na direção em que ela apontava e se deu conta de que duas únicas figuras na estranha procissão se diferenciavam das outras – suas máscaras e o elaborado quimono de uma delas eram completamente brancos. Uma ao lado da outra, elas caminhavam – ou seria dançavam? – em vestes feitas com tecidos elegantes, que pareciam intocadas pela chuva.

Impressionado pelos detalhes do quimono branco, Solo demorou alguns instantes para se dar conta de que havia algo estranho à altura dos pés da figura que ele supunha ser a noiva, que calçava sandálias de madeira altas.

- Ane... – ele chamou em voz baixa quando sua mente finalmente processou a imagem que confundia os olhos. – Aquilo é uma cauda ou é impressão minha?

- Quê?

- Shh!

O sibilar veio acompanhado por um par de mãos os puxando pelos ombros para dentro do beco. Ayane fez um som estrangulado de susto e Solo quase a imitou ao girar no lugar para encarar a pessoa às suas costas.

- Quem...? – lhe escapou em português, mas a garota levou um dedo aos lábios, interrompendo-o com outro chiado:

- Shh! Eles vão ouvir!

Solo sentiu o próprio queixo cair.

- Qu... Você fala português? – Ayane balbuciou com os olhos arregalados. A garota fez outro chiado pedindo silêncio. – Quer parar de chiar desse jeito e se explicar?

A adolescente balançou a cabeça e agarrou os dois amigos pelas mãos, arrastando-os para dentro do beco e para longe da procissão de casamento.

- Elas não gostam de gente vendo! – ela sussurrou por cima do ombro, empurrando-os para uma das esquinas do lado do beco por onde haviam entrado. – Se veem você... – balançou a cabeça enfaticamente. – Kyoubun!

Quando ela finalmente os soltou, Solo analisou sua aparência novamente. Era uma adolescente de cabelos muito escuros e longos sob o que parecia ser um boné de baseball. Ela tinha a pele ligeiramente morena, estava usando uma camisa de mangas longas, uma saia laranja e um par de tênis marrons. Sua aparência era asiática, no mínimo.

Mas ela havia falado com eles em português, e ainda que muitos brasileiros morassem no país, o sotaque não mentia.

- Quem é você? – Solo perguntou, porque não havia muito mais que ele pudesse fazer no momento.

A garota piscou os olhos puxados para ele e soltou uma exclamação de compreensão por baixo do fôlego.

- Setsuko! – ela informou, parecendo triunfante. – Eu sou Setsuko.

- Ookay... – Ayane alongou a palavra e trocou um olhar de estranheza com ele. – E você sabe português porque...?

- Família. – explicou Setsuko com um sorriso sem jeito. – No Brasil.

- Certo. – a garota mais velha acenou com a cabeça. – E o que é aquilo ali?

Ela apontou para a procissão que quase desaparecia no outro lado do beco e a expressão de Setsuko se tornou mais sóbria. Ela se inclinou para perto deles e falou num sussurro:

- Kitsune no yomeiri.

Solo olhou para Ayane e ergueu as mãos para sinalizar incompreensão enquanto ela tentava traduzir o termo.

- ‘Raposa’... ‘A raposa recebe a noiva’? – murmurou a garota de óculos, balançando a cabeça. – Algo como ‘o casamento da raposa’?

- Isso não é o nome de uma música? – Solo franziu a testa e olhou para dentro do beco mais uma vez. – Eles todos são... Raposas?

- Kitsune. – confirmou Setsuko acenando com a cabeça. Ela apontou para o céu ensolarado e a chuva que ainda caia. – Chuva e sol... Casamento de raposa. – voltando a encará-los, ela levantou a aba do boné e continuou. – Não gostam de ninguém vendo. Por isso na chuva ou de noite. Hoje em dia... Quase nunca saem assim.

- Hontouni? – Ayane perguntou erguendo as sobrancelhas, e Setsuko abriu um sorriso e disparou algumas palavras em resposta enquanto confirmava.

Solo observou as duas conversarem em outro idioma por alguns segundos, percebendo que a garota mais nova parecia bem mais confortável com a linguagem que com o português e arriscou mais um olhar para dentro do beco.

Ele podia ver o final da procissão agora. As últimas figuras desapareciam pela rua e, de onde estava, Solo não podia ter certeza de que enxergava caudas ou qualquer outro sinal de que não fossem humanos. Mas era difícil não imaginar agora. A última figura do grupo era pequena, uma criança num quimono cor de rosa, talvez. Ela pulava no final das filas, ligeiramente fora de ritmo, mas sua felicidade parecia mais honesta que todos os outros de onde Solo observava.

Ele sorriu consigo mesmo e subitamente, a criança mascarada virou a cabeça na sua direção e parou.

Uh-oh. Solo recuou um pouco, mas continuou a observar enquanto ela inclinava a cabeça e lançava um olhar rápido na direção da procissão antes de voltar-se para o beco novamente, com decisão, e avançar alguns passos. Sua mão apanhou algo no quimono e estendeu na sua direção, e Solo não tinha nenhuma dúvida de que era a ele que ela se dirigia.

Ele lançou um olhar para Setsuko e Ayane, que ainda estavam envolvidas numa conversa que ele não podia entender, antes de respirar fundo e caminhar novamente para dentro do beco, até parar diante da criança.

Os olhos da máscara o encararam e a mão ergueu um objeto de tecido bordado para ele. Solo, sem saber bem como responder, aceitou o presente com as duas mãos e inclinou a cabeça, murmurando um agradecimento tentativamente. Uma risada infantil o respondeu e a criança lançou um olhar para a rua de onde viera. Ela voltou-se para ele, levou um dedo enluvado aos lábios e correu naquela direção com um aceno energético antes de desaparecer.

- Sol! – uma voz sibilou e Solo sentiu seu braço ser agarrado antes de ser puxado de volta para fora do beco. – O que ‘cê ‘tá fazendo?

- Uhm... – ele ergueu o pacote fino de tecido bordado com imagens que poderiam ser raposas pendurado num barbante. – Er... Eu ganhei isso?

Setsuko olhou do pacote para ele com os olhos bastante abertos.

- Omamori! – ela sussurrou impressionada. – É boa sorte, boa sorte!

- Tem certeza? – Ayane perguntou, nervosa. – Não é perigoso?

A outra garota negou com a cabeça, voltando a falar rapidamente em japonês e Solo analisou o objeto que ela chamara de omamori novamente, sorrindo ao ver as imagens de raposas correndo. Boa sorte, é?

- Solo? – uma voz chamou seu nome, puxando o ‘l’ como se fosse um ‘r’, e ele virou-se para Setsuko, que inclinava a cabeça em sua direção com um sorriso. – Eu vou embora agora. Muito prazer em conhecer você.

Solo sorriu em resposta.

- Foi um prazer te conhecer também, Setsuko. Até logo.

- Até! – a garota se despediu com um sorriso radiante. – Aproveite o sol!

Ela acenou e se afastou pela calçada, uma mochila estampada balançando nas costas. Ayane e Solo a observaram partir juntos em silêncio por alguns momentos, até que a garota observou:

- Isso foi esquisito.

- Muito esquisito.

- Ela disse que ia me procurar no Facebook.

- Legal.

- Acho que ela tava dando em cima de mim, mas pode ser impressão.

Solo ergueu as sobrancelhas.

- Wow.

- Pois é. Crianças de hoje, cada vez mais precoces... – Ayane o ouviu fazer um murmúrio pensativo. – O que?

Ele devolveu seu olhar com um sorriso.

- Eu tenho uma teoria.

- Nem vem, Sol.

- Não sobre isso! – riu o rapaz, olhando para o amuleto uma última vez e sorrindo antes de guarda-lo no bolso. – Uma teoria sobre a gente, Ane... Quer ouvir?

Ayane suspirou exageradamente.

- Vá. Diga.

Solo riu outra vez e a envolveu com um braço.

- Eu acho que a amizade da gente não acaba tão cedo... E que as coisas vão dar certo pra nós dois. Que tal?

Ela sorriu com o canto dos lábios em resposta.

- Sabe de uma coisa? Essa não é tão ruim assim.

E rindo novamente, eles caminharam juntos sob o sol e a chuva que parava de cair.

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Título: Teorias sob chuva e sol

Referências: Trecho do filme "Dreams", de Akira Kurosawa, especificamente o curta "Sunshine through the rain"
Música "O Casamento da Raposa", de Gerson Filho, na versão por Nicolas Krassik e Cordestinos
Música "O Casamento da Raposa com o Rouxinol", de Alceu Valença

Mais informações sobre "Kitsune no Yomeiri" aqui.

Glossário rápido e sujeito a erros: Waribashi: Palitos de madeira usados como talheres (hashi) em vários países da Ásia. Waribashi refere-se especificamente aos hashi descartáveis de madeira utilizados em restaurantes, que devem ser separados um do outro.
Kyoubun: "Más notícias" (tradução Denshi Jisho)
Kitsune no yomeiri: “Casamento de Raposas”, o termo é aplicado a dois fenômenos no Japão; à chuva que cai quando está fazendo sol e às luzes que podem ser vistas durante a noite, principalmente em cemitérios. Para mais informações, consultar o link acima.
Kitsune: Literalmente, “raposa”, mas aqui refere-se às criaturas mitológicas capazes de viver por muitos anos e se disfarçar de humanos, além de realizar vários outros truques. Para mais informações, consultar Wikipédia ou o blog Hyakumonogatari Kaidankai (em inglês).
Hontouni: "Mesmo?", "É verdade?" (tradução Denshi Jisho)
Omamori: Amuletos ou talismãs japoneses geralmente vendidos em templos com o propósito de oferecer boa sorte ou proteção. Mais informações, Wikipédia.

Então. Esse conto é parte de um conjunto que estou chamando tentativamente de Presentes Passados. Originalmente, foram escritas sete histórias para sete amigos que deveriam ter sido preparadas e entregues no Natal de... 2012, se não me engano. Obviamente, as duas últimas histórias só foram escritas e entregues como presentes de aniversário esse ano 8D

O conto acima é meio que um "spin-off" com os personagens do conto que foi escrito para a srta. Bibiana Onuki e dedicado à mesma, que está fazendo aniversário hoje :D (Ela também me deixou pensar por uma semana que o aniversário dela foi semana passada e eu tinha esquecido completamente D: mas isso não é relevante). Feliz aniversário, luv, espero que você goste e vamos aproveitar o sol hoje e sempre ;)

Um comentário:

  1. Rafantasias!! Do trivial ao mágico e um tiquinho de Chihiro.

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